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Memória de Santarém: Há mais de 160 anos, o remédio popular para picada de cobra

Editor: Lúcio Flávio Pinto - Miguel Oliveira/Redator interino - 16/03/2025

Página com publicação da carta de Dr. Francisco da Silva Castro endereçada ao jornal oficial Gazeta do Pará, em 2 de setembro de 1858 - Créditos: Reprodução

 

 

Carta endereçada ao jornal imperial Gazeta Official do Pará, em 1858, revela o uso, com sucesso, da planta Paracary, para mordeduras de cobra e picadas de arraia, cuja eficácia o autor conhecera na Santarém do período imperial.

 

 

O Dr. Francisco da Silva Castro escreveu uma carta publicada pelo jornal oficial Gazeta do Pará, em 2 de setembro de 1858, relatando as qualidades da planta Paracary, considerada antídoto das mordeduras de cobra, picadas de arraia, lacraus, cuás ou maribondos, cuja eficácia conhecera na Santarém imperial.

 

Em 25 de março daquele ano,  Francisco Castro, que ocupava um cargo na Repartição de Saúde Publica, já havia prestado ao governo da Provincia em “ huma informação dada em função do cargo, isto he, de que a planta Paracary, capitulada como antídoto do venemo das mordeduras das cobras, e d’outros animaes, carecia sêr mais estudada, para merecer as honras que lhe conferem; no entanto desse pouco não farei monopólio e o porei ao alcance de todos.”

 

Na carta, publicada na seção Comunicado – Medicina, do jornal, informava que Antonio Francisco Pereira da Costa, morador em Santarém foi quem chamou a atenção desta planta, de novo introduzida na prática  moderna da Ciência de curar, a respeito de suas atitudes antivenenosas, e lhe deu o nome de Paracary, em razão dela vegetar muito abundantemente no seu sitio, estabelecido às margens do lado Paracary, na Comarca de Santarém [no limite com Alenquer].

 

Paracary é citada como sendo também conhecida pelos nomes de de hortelã brava, ou hortelã do campo. Em Belém, o povo dava o nome de São Pedro-caá, que quer dizer Herva de São Pedro.

 

Entre os índios em linguagem tupi denominão-a por boiacaá, que significa herva de cobra. Em Pernambuco he conhecida como meladinha.

 

Abaixo, publicamos a carta em sua linguagem original, usando a ortografia da época:

 

 

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Trinta kilometros acima de Santarém o Amazonas divide-se em dois canaes: o meridional, que toma a direcção de sueste e recebe as aguas do Tapajoz, e o braço septentrional, que corre primeiro para leste e depois faz uma volta rapida para o sul, unindo-se de novo ao canal principal dezesseis kilometros abaixo de Santarem na ponta de Urubú-quáca.

 

O grande trato triangular de terreno de alluvião assim cortado chama-se Ilha de Tapará, ou algumas vezes Ilha Grande de Santarem; mais de metade da sua superficie é ocupada por lagos.

 

Obraço meridional do rio tem uma largura regular de cerca de tres kilometros. O terreno alluvial da margem direita está evidentemente soffrendo constantes desmoronamentos: ao longo da margem esquerda, pelo contrario, ha muitos logares rasos, e em um ponto ha alguns annos que appareceu um banco de areia. Parece, portanto, que contra a regra geral esta parte do canal do rio está sendo gradualmente obstruida.

 

O braço septentrional ou o Amazonas de Paracary, como é denominado, está alargando os seus limites em toda a extensão: Em alguns logares tem mais de tres kilometros de largura; mas logo abaixo da volta é repentinamente aper-

tado pelo promontorio formado pelo taboleiro e denominado Barreiras de Paracary: n'este ponto mal poderá ter mais de oitocentos metros de largura. A grande massa d'agua, depois de passar as barreiras, forma um d'esses perigosos redemoinhos, conhecidos no Amazonas pelo nome de caldeirões.

 

Durante as enchentes a força d'este redemoinho é terrivel,grandes troncos de cedro são sorvidos e só vem de novo à tona d'agua a muitos kilometros rio abaixo. Os canoeiros evitam-no cuidadosamente e contam-se muitos casos de embarcações terem sido engulidas n'este ponto. ' Em geral, quando em Paracary encontrei um homem que, quando menino, dizem ter sido levado até no fundo d'este redemoinho, mas em seguida vein á tona d'agua e foi salvo; mas confesso que duvido da habilidade ainda mesmo do mais forte nadador para subir a tona d'agua no redemoinho.

 

Não se tendo publicado pela imprensa couza alguma sobre as qualidades da planta Paracary, considerada antídoto e contaveno das mordeduras de cobra, picadas de arraia, lacráos, cuás ou maribondos, objeto, que tanto tem preocupado a attenção pública, particularmente daquellas pessoas que abitão as róças, fazendas de creação de gado, e outros logares do interior desta província, por onde abundam tantos daqueles animais prejuduciaes, e mesmo perigozos á vida do homem, e d’outros sêres da Creação, e dezejando eu satisfazer em parte a tamanho interesse, e em quando não aparece que mais competentemente elucide semelhante ponto, vou por isso importunal-o, sr. redactor, para acceitar no seu conceituado jornal este pequeno comunicado, que poderá talvez conduzir a novas investigações futuras, as quaes por certo hão de melhor satisfazer, não só as vistas da Sciencia, como especialmente as conveniencias, e proveito da sociedade.

 

Espero merecer-lhe este favor.

 

Pouco posso acrescentar ao que disse em 25 de março do corrente anno ao exm. governo da Provincia em huma informação dada em função do cargo, que occupo na Repartição de Saúde Publica, isto he, de que a planta Paracary, capitulada como antídoto do venemo das mordeduras das cobras, e d’outros animaes, carecia sêr mais estudada, para merecer as honras que lhe conferem; no entanto desse pouco não farei monopólio e o porei ao alcance de todos.

 

Não conservo hoje o mesmo gráo de incerteza sobre as virtudes medicinaes daquelle vegetal, como há quazi seis mêses passados, quando então não só a planta, mas também tantas informações, que depois colhi, não eram desconhecidas, e além disto estava baldo d’observaçoes clinicas, que agora possúo, ainda que por em quanto, mui limitadas. Relatarei pois minuciozamente o que tenho apreendido, e estudado ácerca desse novo sujeito, que não alargou o domínio da Botanica, ao menos veio enriquecer o tesouro da Materia Medica, e augmentar os recursos da Therapeutica com hum agente, que  já a fortaleceo poderozamente em éras bem remotas.

 

Foi o sr. Antonio Francisco Pereira da Costa, morador em Santarém quem chamou a attenção desta planta, de novo introduzida na prática  moderna da Sciencia de curar, a respeito de suas atitudes antiveneficas, e lhe deo o nome de Paracary, em razão della vegetar mui abundantemente no seu sitio, estabelecido as margens do lado Paracary, na Comarca de Santarém. Devo todavia declarar, que não he só ali, que floresce semelhante planta; em toda parte he encontrada na dita Comarca, e he muito de crêr, que o mesmo succeda por outras desta província. Nesta capital cresce espontaneamente, pelas estradas de Nazareth, S. Jeronymo e Cemiterio, e em geral por todas as rocinhas do arrabalde: dentro dos muros do cemitério acha-se em extraordinaria abundancia. Posso mesmo assegurar, que poderá ser encontrada por qualquer, que procure, em todos os terrenos roçados de novo, nos pastos, e nas campinas de terreiros de qualquer fazenda rural, porquanto tenho sido informado por muitos lavradores, a quem eu tenho mostrado, que ella existe em suas terras, sem do alguns destes fazendeiros do Acará, Gamà, Barcerena, Cametá e Marajó.

 

Não he, porém, pelo nome de Paracary que he geralmente conhecida, mas sim pelo de hortelã brava, ou hortelã do campo. Nesta capital o povo dá-lhe no nome de São Pedro-caá, que quer dizer Herva de São Pedro.

 

Entre os índios em linguagem tupi denominão-a por boiacaá, que significa herva de cobra, como também se lhe chama por algumas partes, segundo me consta, e o referem alguns escritores antigos. Dizem-me que em Pernambuco he conhecida como meladinha.

 

He huma planta herbacea de caule tétrageno, de um, dois, e às vezes mais palmos de altura, de ramos opostos, cujas folhas são simples, oppostas, e ovaes-agudas; ligeiramente aromáticas, quando se dilacera entre os dedos, participando do cheiro da hrtelã e da melissa ou herva-cidrera; suas flores são completas, de cor arroxada, nascem nas axillas das folhas, e grupão-se em capitulos ou corymbos penduculados, tem um caule gamosépalo, tubuloso com cinco divisões, a corella he gamopétala, tubulosa, e irregular, dividida em dois labios, hum superior e outro inferior, os estamos são dydinamicos e perfeitos(...)

 

Não sei se he desta mesma planta, que se occupa o distintco sábio o sr. dr. Martius, na sua excellente obra intitulada Systema Materioe Medica Vegetabilis Brasiliensis a folha 102, ou se d’algum outro indivíduo da mesma família (...)

 

Ora  ser desta própria panta, que nos dá noticia o celebre escritor, quer ela seja o Peltodon Radicans, quer o Clinopodiun repens, o que he certo he que não lhe era attribuída a propriedade medica, que hoje se lhe tem assignado, com grande enhtusiasmo em Santarém, e que tantos benefícios tem proporcionado como anti-venefica das mordeduras e picadas d’animaes venenosos. He muito provável que a planta em questão seja uma nova espécie a acrescentar a grande família das labiadas, a qual ainda não tinha sido contemplada por autores modernos. (...)

 

Ao senhor Antonio Francisco Pereira da Costa não lje cabe, pois, a gloria da invenção ou da descoberta, no entanto a sua noticia tem o grande mérito da renascença, isto he, d’haver ressuscitado do esquecimento uma planta assaz preciosa, por suas virtudes medicinaes, sob a qual tem pezado ingratamente a mão do tempo, guiada talvez pela influencia da moda.

 

Outro he o meu pensar ácerca do que escreverão a este respeito em 1648 em suas apreciáveis obras os sábios naturalistas Guilerme Piso e Jorge Marcyravius, distintos médicos, que acompanharão o Principe Mauricio de Nassau na conquista de Pernambuco pelos Hollandezes.

 

Teria o sr. Costa conhecimento das obras de  Piso e  Marcyravius, para revocar à vida o uzo já esquecido, da planta chamada erva de cobra? Ou como seria para ter conhecimento das virtudes medicinaes dela? Posso afiançar, que nenhuma noticia tem aquelle senhor das obras de semelhantes autores, não só por serem antigas, e raras, mormente nessas paragens, como porque não he a leitura de livros, especialmente os de medicina, a sua ocupação ordinária.

 

Contarei, pois, segundo elle me referio, o modo como chegou ao descobrimento desta verdade.

 

Sendo as margens do lago Paracary, e os campos imediatos, tão fartos de cobras venenosas, particularmente das cascaveis ou tangedores, boiacininiga, [crotalus, trignocephalus, e outras Barão Cuvier), e de jacruarus, repteis da classe dos saureos, os quais se differem do camaleão por ter a cor cinzenta, e o focinho e o nariz bífido [Guibort), raro era o dia em que o sr. Costa não visse hum combate entre animaes daquelles dois gêneros. Notava, porém, constantemente, que depois de algum tempo de luta fugia o jacruaru da cascavel, e guiado por seu instinto natural, procurava o arbusto, para delle comer algumas folhas, e premunir-se desta arte contra o veneno da cobra inoculado pelas feridas recebidas por seu corpo na ocasião da briga. Depois de restaurado, voltava ao combate, e se novas feridas recebia, logo procurava outra vez o contra-veneno. Huma e muitas vezes observou o sr. Costa que este facto não passou desapercebido perante seu espírito prescutador, e desde logo comprehendeo que naquela planta subsistia o remédio da cobras, e outros animaes da mesma ordem. Desde logo projectou a experimentar a dita planta no primeiro animal mordido pela cascavel, a fim de reconhecer se realmente possuía singular virtude, que supunha ter. Foi um cão de caça, que deo logar a primeira experiencia, e pouco depois uma vitela se prestou a segunda. Em ambos os cazos os resultados foram assaz favoráveis, os animais sobreviverão e se curarão com admiravel rapidez. Muitas outras experiencias se fizeram sucessivamente, tanto em animaes domésticos, como no homem, e sempre os resultados foram coroados de feliz succésso. Generalizou-se a noticia de semelhante descoberta, e hoje não há na comarca de Santarém huma só pessoa, que deixe de acreditar nos beneficos effeitos de semelhante planta. A muitos creadores de gado ouvi cazos de curas operadas por meio della em seus animaes mordidos por jararácas, surucucús, surucucuranas, cascaveis, paráuabóias, e outras cobras igualmente venenosas.

 

Consta-me que hoje he raro o caso de perdas d’alguma rêz mordida por cobra, salvo quando não pode ser acudida a tempo.

 

O seu uso ou emprego he tanto externo quanto interno, para destruir o veneno das cobras, e arraias.

 

Internamente tem-se aplicado o suco expresso da planta fresca ou verde, na dose meia chávena, duas ou três vezes com intervalo de hora d’auma outra dóse, e externamente em cataplasma formada de toda a planta socada e posta sobre o logar ofendido, mudando-se o tópico logo que esteja secco. Contra o ferimento das picadas da cáuas ou maribondos, lacraes e outros animais, considerados venenosos, basta usar somente da cataplasma, para em breve tempo, ver-se desaparecer todos os incommodos. O seu emprego não se tem-se somente circumscripto ao homem; algumas espécies d’animaes domesticos, como o boi, o carneiro, o cão, &c, tem participado de igual aplicação, e todos tem colhido felizes resultados. Não me consta que em nossos dias se tenha usado della em decoração ou em tintura; no entanto he de crer, que sob qualquer destas formas phamaceuticas deva produzir idênticos benefícios como outr’ora produzia, quando empregado em estado de secca e em pó.

 

Por mim mesmo tenho observado dois casos bem significativos do aproveitamento de semelhante planta no homem. Foi um delle observado em Santarém; uma picada de cáua, no dedo da mão, com grandes dôres pelo braço e muito rubôr ao longo da veia céphalica correspondente, e tudo cessou como por encantamento, com a só aplicação de uma cataplasma da planta socada, e posta sobre o dedo ferido. Foi o outro huma ferrada de arraia, observado nesta capital, que cedeo rapidamente em poucas horas, cessando a dôr que o doença sentia na perna, e abatendo a sensação enorme, que havia no pé ferido, isso tudo alcançado por meio da mesma planta, emprega interna, e externamente. O doente conserva apenas uma pequena ulcera, que está em via de cicatrização.

 

Novas observações irei colhendo, e muito he para desejar, que todos os profissionaes se esforcem em esclarecer esse importante ponto da Medicina Pratica, trazendo ao dominio do publico, o resultado de suas observações clínicas.

 

Finalisarei este artigo perguntando, não será também aproveitável esta planta para a cura da hydrofobia. Só a observação e a pratica poderão resolver esta nova questão. Convirá, pois, que os medicos de países, aonde costuma apparecer tão perigosa doença, se resolvão a ensaiar o uso della.

 

Queira, sr. Redactor, dar logar, em huma de suas páginas, a este appêllo em favor da humanidade.

 

Pará 2 de setembro de 1858

Dr. Francisco da Silva Castro.




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